A divina tragédia do Padre Pantarolo Emanoel Reis Padre Geovani Pantarolo dormindo: - Rooooonc!! Rooooooonc!!! Subitamente, ouve uma voz cavernosa: - Geovaaaani!! Geovaaaaaaani!!! Padre Pantarolo acorda sobressaltado: - Quem é? Quem me chama? Quem "soy"? A voz, de novo: - Sou eu, Geovani Pantarolo, que te chamo! O padre, de joelhos, com as mãos postas, implora: - Diga-me, quem és! O que queres de mim!!! E a voz, mais cavernosa ainda: - Eu sou a Morte, Pantarolo! E hoje é o teu dia. Ao meu lado está ele, que veio buscar a tua alma. Padre Pantarolo, desespera-se: - Nãooooo!! Não pode ser! Ainda não é a minha hora. Ainda tenho muito a fazer pela obra do Senhor. E a Morte: - KKKKKKKKKKKKKKKKKK! Já fizeste demais pela obra do Senhor, Pantarolo. Até extrapolastes os limites pela obra do Senhor, Pantarolo. Agora, vem comigo! Pantarolo, em prantos: - Shif!! Shif! Bem, se não tem mesmo jeito... Senhor, estou pronto. Pode levar a minha alma ao Paraíso Em tom de surpresa, a Morte retruca: - O que estás dizendo, Pantarolo! O senhor que quer a tua alma é outro. É ele, o Coisa Ruim. É Lúcifer, Pantarolo, que veio buscar a tua alma!!!! Padre Pantarolo entra em desespero: - Nãoooo! Nãoooo! Nãoooo! Por favor, não! E padre Pantarolo cai durinho, ao lado do catre. Na outra dimensão, o próprio Capeta arrasta pelos cabelos a alma do pobre padre Geovani Pantarolo. Quando os dois passam às proximidades dos portões celestiais, Pantarolo ouve um batuque vindo do Paraíso. Entre berros, pede ao Diabo para ver o que estava acontecendo. Arregala os olhos quando enxerga no meio da roda, Mestre Pavão comandando o Marabaixo. Então, agarra-se às barras de ouro maciço da grade do portão do Céu e começa a gritar: - Vocês estão no lugar errado! Vocês estão no lugar errado! Era eu prá estar aí! Eu sou o santo. Aí não é o lugar de vocês. Eu protesto! Eu protesto! Me larga! Me larga! Desgruda, Capeta! "Sai do meu reto", Satanás! Padre Pantarolo acorda esbaforido, suando mais que maratonista no quilômetro final. Toca-se todo para ver se realmente ainda estava vivo. Ao confirmar que tudo não passara de um sonho, senta-se no catre, respira fundo, olha para um pequeno baú escondido sob o velho armário. Abre a tampa com cuidado e de dentro saca um LP empoeirado. Com a borda inferior da batina tira o pó do vinil e o coloca cuidadosamente na velha vitrola. De repente, um tum-tum-tum suave vai tomando conta do pequeno quarto da residência paroquial da Igreja de São Benedito e padre Pantarolo, já relaxado, deita-se no catre, põe as duas mãos atrás da cabeça e fica lá, olhando o teto e sorrindo, balançando os pés ao som do Grupo Pilão.
Escrito por Editor Emanoel Reis às 14h34
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